segunda-feira, 18 de novembro de 2013



Falando um pouco de ecologia e vida no planeta

Observa-se na atualidade que as sociedades criam um conjunto de necessidades para seus membros e ensina-lhes que a vida não vale a pena ser vivida e mesmo, não pode ser, materialmente, vivida a não ser que essas necessidades sejam bem ou mal “satisfeitas”. Esse modelo só conseguiu surgir, manter-se, desenvolver-se e estabilizar-se colocando no centro de tudo as necessidades econômicas que mudam drasticamente de cultura para cultura.

A questão não é saber se se critica este conjunto de necessidades de um ponto de vista pessoal, de gosto humano, filosófico, biológico, médico ou o que quiserem. A questão recai sobre os fatos, sobre os quais não se devem nutrir ilusões. Exemplificando o encadeamento que se origina de uma necessidade criada: esta sociedade funciona porque as pessoas têm que ter um carro e, em geral, podem tê-lo e podem comprar gasolina para esse carro. Esse sistema não poderia, provavelmente, continuar se não lhe fosse assegurado este ramerrão do consumo crescente. A sociedade poderia recolocar-se em causa dizendo: o que se está fazendo é completamente louco, a maneira segundo a qual se vive é absurda.

Os movimentos ecológicos põem em questão o esquema e a estrutura das necessidades, o modo de vida. O que está em jogo, no movimento ecológico, é toda a concepção, toda a posição das relações entre a humanidade e o mundo e, finalmente, a questão central e eterna: o que é a vida humana? Vive-se para fazer o quê?

A essa questão já existe uma resposta e todos a conhecem: é a resposta do modelo materialista, no enunciado programático bem conhecido de Descartes: atingir o saber e a verdade para “nos tornarmos senhores e possuidores da natureza”. Ou, conforme a passagem bíblica em que é outorgado ao homem um título de propriedade sobre a natureza: “...e domine [o homem] sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre o réptil que se move sobre a terra...” ou, ainda, conforme Descartes, no Discurso do Método, cap. IV, em que, expressamente, afirma que fez seu método para que os homens se tornassem „donos e domadores da natureza‟.

Dessas visões equivocadas, originou-se a cultura da “natureza inimiga” e dissociou-se ou fragmentou-se, perigosamente, o ser humano como animal-racional-ambiental que é, pois a Terra supõe um mecanismo de inclusão, de troca, de cumplicidade homem/Planeta, pessoa/ambiente, sem o que a vida não seria possível.

Continuando a exemplificação, aliás citadas por vários especialistas, a contradição existente entre a cultura irrefletida e a vida: o problema dos engarrafamentos nas cidades, poder-se-ia anunciar como solução para eliminá-los a quadruplicação e a largura da avenida. Mas, que são estas cidades? O que é que as pessoas que as lotam têm, verdadeiramente, vontade de fazer? Como é possível que elas “prefiram” ter seus carros e passar horas de cada dia nos engarrafamentos a outra coisa qualquer?

Ao discutir com as pessoas em um engarrafamento, ninguém dirá: “É meu sonho, todas as noites, os engarrafamentos. Sem engarrafamentos eu seria verdadeiramente infeliz”. Na realidade, o que elas pensam é: “não há alternativa; e eu pego o engarrafamento para ter quatro semanas de férias”. Fica-se com quatro semanas de férias, que são um sinal de liberdade; e também não é isso. Mas é difícil organizar sua vida de outra maneira quando não há efetivamente movimento social propondo uma alternativa. É aí que tudo parece morder a própria cauda. Não há movimento que permita que as incertezas dos indivíduos sejam resolvidas.

Colocar o problema de uma nova sociedade é colocar o problema de uma criação cultural extraordinária. É possível ver-se ao redor nascer um outro modo de vida que prenuncia, prefigura algo de novo, algo que daria um conteúdo substantivo à idéia de autogestão, de autogoverno, de autonomia, de auto instituição? Responsavelmente, deve-se agir com a cautela de não ser levado por outros desejos, por outras “necessidades” habilmente incutidas na grande massa de pessoas que não podem ser satisfeitas no sistema social contemporâneo .

O movimento ecológico deve tentar conquistar todos os terrenos que o coloquem em posição de debate, em todos os níveis, contra aqueles que, neste momento, dominam os debates. Toda política que não tenta, não se diria conquistar as cabeças, mas pelo menos sensibilizar as cabeças, caminha para o fracasso. Há que se aprender a conscientizar-se, entendida a consciência como um estado de atenta vigília frente aos fatos que estão ocorrendo no respectivo instante, aqui e agora, comigo e à minha volta. A Ecologia não é apenas relacionar-se com o Universo, mas entender e viver a ideia de que se é o Universo, de que não existem duas realidades (o homem pensa e o Universo que siga seu caminho sem se dar conta de si mesmo).

“Vivemos num mundo em grande desenvolvimento tecnológico e científico, onde a cada dia surgem novos conhecimentos e, entretanto, destruímos o meio ambiente ameaçando a nossa própria existência”. Hélio Lopes do Amaral, Defesa do Meio Ambiente-Desafio do Séc XXI..., 2012 (embasado em pesquisas, dentre outras (CASTORIADIS e MUMFORD).

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